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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vinte centavos e um café

   O preço da passagem subiu para R$3,40. Extrapolou o absurdo. Moro perto da faculdade e, quando dá, vou à pé. Hoje não dava: combinei de encontrar às 19h30 com uma amiga, para devolver uma saia emprestada há meses. Ela tinha pressa e eu já não tinha mais ânimo para estudar, então calcei o chinelo e, com algum sono, saí rumo ao ponto de ônibus. Trazia no bolso do short duas notas de R$5. Pensei: ótimo! O dinheiro dá certinho para ir e voltar de ônibus e ainda comprar um café. Mas hoje não dava.
   Cheguei no ponto e o 239 estava quase saindo. Servia para mim. Teria dado tempo de correr e alcançar, mas eu estava com sono. Não tardaria para passar outro que me servisse. Encostei no poste, entediada, e uma mulher me perguntou e eu ia pegar o 711. Pensei em questionar o porquê da pergunta, mas lhe disse que me servia, sim. Ela então perguntou se eu poderia inteirar sua passagem, exibindo-me umas parcas moedinhas pousadas sobre a mão suja. Respondi que sim.
   As unhas eram curtas. Era mulher. Uma barba rala no rosto, e era mulher. O cabelo comprido e crespo preso num rabo-de-cavalo igual ao meu. Era igual ao meu, era igual a mim, era mulher! Outrora ouvira: "mas e Deus? mas e o inferno? mas e teu papel no mundo? mas você acha isso bonito? mas que sem vergonhice!". Era elA. Era eu. 
   Perguntou quanto custava mesmo a passagem. Disse-lhe o preço. Ela se espantou. Perguntou-me se eu me lembrava das manifestações contra o aumento das passagens em 2013. Conversamos, indignadas. Passou 638, passou 433, e mais um tanto de ônibus que servia para mim, que tinha marcado hora com a amiga e queria café. Mas não titubeei quando ela me pediu o dinheiro que faltava, e sem me arrepender, sabia que abrira mão do café. Sorvi sua pele. Tomei sua dor. Era quente e sem açúcar. O sono passou.
   Subimos no ônibus, paguei duas passagens. Passamos pela horrenda roleta. Ela me agradeceu. Assenti num sorriso. Sentei-me num lugar e ela noutro, mais atrás. Afastamo-nos para sempre, e para sempre estaríamos unidas pelo fardo de sermos mulheres com a ousadia de se exercer num mundo hipócrita e bitolado.
   Sentou-se à minha frente uma mãe com criança de colo. Não saberia dizer se era menina ou menino, a criança. Fiz festinha e aquele comecinho de gente me sorriu um sorriso careca. O sol se punha, lindo, na janela do ônibus. Senti felicidade. Mas  já quase chegando meu ponto senti culpa por comprar por R$3,40 o direito de não andar por vinte minutos de casa até a faculdade. Saltei desejando que aquela mulher não estivesse me olhando, e que não pensasse mal de mim por gastar quase quatro contos por preguiça.
   Cheguei ao local do encontro antes do horário combinado. Sentei-me num banco e passei mecanicamente o troco do bolso à carteira. Faltavam agora vinte centavos para que eu pudesse voltar de ônibus para casa (o que é aconselhável, porque o horário, porque o short, porque as pernas de fora, etc). Me ocorreu pedir vinte centavos emprestados de alguém, mas de pronto mudei de ideia. Estava decidido: voltaria a pé. E, definitivamente, não seria só por conta de vinte centavos.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O amor começa

se Paulo Mendes Campos me permite (http://www.releituras.com/i_eleonora_pmcampos.asp)...

O amor começa. No meio fio, por exemplo, numa terça feira de sol escaldante, depois de uma aula de teatro e algum debate; começa em cafés ajeitadinhos, diferentes das praças tão bucólicas nas quais termina; lentamente, no meio do cigarro que ele traga ou que ela esmaga no cinzeiro, repleta de “isso vai te fazer mal”; na doçura da aurora tropical, depois de uma noite votada à alegria que veio pra ficar; e começa o amor no enlace das mãos já na fila do cinema, antes mesmo de o filme começar, porque as mãos sabem dos começos antes mesmo de eles começarem; na insônia dos braços luminosos de um envolvendo o outro; e começa nas sorveterias, com as caldas de chocolate sujando os dedos, as bocas, as roupas; mecanicamente no elevador que para, como se a queda de energia dissesse “beijem-se!” a um tímido quase casal; na epifania da lindíssima pretensão dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma decide desbravar as províncias da Ásia, onde o amor não pode ser nada além de amor, o amor pode começar; na necessidade da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles salvadores de água de coco à beira do mar; no filho tantas vezes semeado, quase vingado por alguns dias, mas que ainda não floresceu, abrindo páginas de possibilidades a serem escritas entre as cores e o bom cheiro de uma só flor; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que encanto; e o amor começa na purpurina do carnaval, caindo bem perceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sonho, suor e planos; nos roteiros da vida para a vida, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada, em casinhas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e prossegue; no inferno o amor começa e faz dele o paraíso; na honestidade o amor se aprofunda; em Brasília pode ser umidade; no Rio, vento forte; em Belo Horizonte, maresia; em São Paulo, dolce far niente; uma carta que se decide enviar, e o amor começa; na descontrolada fantasia da libido; às vezes começa na mesma música que começou um outro amor, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e às vezes até começa em ouro e diamantes; e começa nos cruzamentos do trânsito caótico do centro da cidade; começa no coração já tantas vezes remendado, e que o médico sentenciou imprestável para o amor, e começa no longo cantar do galo, que já nem se escuta em meio a tanta buzina – mas começa! Na janela que se abre, na janela que se fecha, às vezes o amor começa sem que ninguém dê nada por ele; uma palavra, às vezes sussurrada, e o amor começa; na verdade; no cheiro das flores roubadas da primavera; no calor tão reclamável do verão; no barulho do pisar em folhas secas de outono; nos abraços obrigatórios ao inverno; em todos os lugares o amor começa; a qualquer hora o amor começa, por qualquer motivo o amor começa; talvez até para um dia acabar e recomeçar de novo em todos os lugares e a qualquer minuto o amor começa.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

À caminho da felicidade escandalosa

O lado ruim de já ter sido plenamente feliz é não conseguir me conformar à meia felicidade. O lado ruim de terminar um namoro é ficar me questionando se esta foi mesmo a decisão mais acertada. O lado bom do sábado à noite é que tudo pode acontecer.

Confesso que saí de casa mal intencionada. Comprometida apenas com a ideia de me divertir terrivelmente. A fim de fazer tudo o que não me interessa(va) nem um pouco desde quando tinha lá meus 15 anos ou menos: ficar levemente embriagada, dançar sem qualquer pudor, beijar com afã desesperado alguém que nunca tivesse visto na vida.

E foi o que fiz. Passei meu batom vermelho e me dirigi ao paraíso: um lugar onde só toca mpb. Mas antes, lembrei que o rastro que meu Alvedrio deixou em mim é como um perfume francês: forte demais. Invadiu meus poros e agora faz parte do meu sangue. Mas dessa vez, lembrei do lado mais positivo desse rastro: minha vida segue parecendo um filme.

Por isso mesmo foi que conheci um moço que faz cinema. Um sujeito estranho na barba, nos olhos, no gosto de sal, e mais, embora não tenha tocado Oswaldo Montenegro - uma pena, aliás. Primeiro, conheci seus olhos. Assim, à distância. Fitei seu olhar fitando a mim. E então, houve um joguinho irresistível de desviar de olhares falsamente tímidos.  Sempre à distância. Um diálogo mudo e sempre à distância. Coisa de cinema. Sempre na levada da música que embalasse cada instante. Sempre parecendo que a vida era um eterno dançar e flertar. 

O flerte é uma prática indispensável à felicidade escandalosa. E aqui resgato Baudelaire: o importante é embriagar-nos do que quer que seja. No caso do flerte, não importa com quem ou com o que flertamos. O importante é que haja recíproca. Ontem, flertei com o espelho, com o batom vermelho, com a música brasileira, com dois copinhos de caipirinha, com meu corpo desenhando danças improvisadas pelo espaço, com o próprio flerte e com o moço do cinema. E todos flertaram comigo, de volta. E foi só por isso que a noite passada foi mágica: flertei comigo. E flertei comigo, de volta. Uma recíproca encerrada em si mesma. Protótipo de felicidade-escândalo.

É claro que nada do que aconteceu ontem me assegura a felicidade derradeira (algo assegura?), mas já não importa. Na verdade, nada do que aconteceu me assegura nada. Mas tampouco isso importa. O que importa é que percebi à tempo que nada vai dar certo a quem não se apaixonar perdidamente por si mesmo.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Cíclica

Era final de período quando nos conhecemos. Antes mesmo de lo nuestro virar namoro, vivemos aquele amasso memorável no sofá da casa do teu amigo. Lembro que antes de ele ir dormir, estávamos naquele mesmo sofá, comportadíssimas, assistindo A Invenção de Hugo Cabret. Não terminamos de ver o filme, e eu jamais havia ouvido falar nele desde então. E hoje, cá estou eu num sofá, novamente fitando A Invenção de Hugo Cabret e, novamente, não há a menor pretensão de terminar de ver esse filme. No momento, aguardo apenas minha amiga encontrar a primeira temporada de New Girl para assistirmos.

É final de período agora também, mas, apesar do sofá e da sexta feira, não haverá qualquer amasso nesta noite. Nada de amasso, nada de Hugo Cabret. Só duas amigas assistindo uma série leve e divertidíssima entre pizza, Hershey's heteronormativos, uma york shire chamada Lucy e comentários sobre aquele cara que nem beijava tão bem assim. 

Talvez só eu no mundo percebesse as coincidências tão sutis dessa situação. Mas o que me chama atenção mesmo é o quanto a vida é cíclica. Esse jeito da minha história se escrever sempre sem dar ponto sem nó nunca para de me fascinar.

Isso me remete àquela noite mágica da formatura da Guta. Dancei a noite inteira, cheia de champanhe e amor por aquele lugar que outrora havia sido cenário de uma noite tão tristonha. Hoje, como naquela noite, me sinto feliz por não ser mais a menininha frágil que tanto se deixou abater por aquela ressaca amorosa tantas vezes mencionada em bebedeiras e madrugadas sob a nobre companhia de Álvaro de Campos... Não sou Jess Day chorando copiosamente por lembrar do babaca do Spencer enquanto assiste Dirty Dancing. Se é pra ser Jess Day, sou Jess Day imitando um pato na pista de dança de uma festa de casamento, absolutamente imune ao destrutivo medo do ridículo.

Decerto chorei e sofri pela nossa despedida, meu bem. Você sabe... Sofreu e chorou também. Eu vi. E compreendo. Era um filme tão bonito que dava vontade de ser para sempre elenco dele, e nunca mais fazer nada além de cantar para você e beijar sua boca. Mas uma atriz precisa saber se desapegar de um papel. E o filme acabou.

Na maior parte do tempo eu tenho lidado bem com essa informação. Mas sinto sua falta na hora de dormir sem cafuné, na hora de ficar bestando na Letras ao invés de ir te visitar no estágio, na hora de acordar sem sms de bom dia, abrir uma garrafa de rosca ou de esperar o 711 sozinha no ponto depois da aula. Mas aprendi tanto contigo que seria traiçoeiro deixar a tristeza me impedir de fazer jus aos aprendizados. Não vou mais sofrer por trás do batom vermelho. Eu mereço mais sorrisos gritados. E você também.

Lembrei de algumas coisas que aconteceram no futuro.

Amanhã, vou errar o lado da General Roca que me levaria mais rápido até a minha casa. Vou ter que parar quase no Batista Shepard para me dar conta de que estou no caminho errado. E então vou concluir, pela milésima vez em 20 anos, no meu melhor jeito clichê de ser, que preciso me perder no geográfico para me encontrar no existencial. Preciso me perder no mundo para me encontrar num (outro) grande amor. 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Secretária eletrônica

O menino digita oito números aleatórios e espera enquanto o telefone chama. Atende uma voz feminina, mecanicamente:
- Alô?
- Fala pra ela, moça! Fala que eu to precisando ficar sozinho, sambar no escuro, cantar pra dentro. E olha que já faz tempo... Preciso nem lembrar que existe mais gente no mundo, pensar em quem eu sou, no que eu quero, no quanto eu posso. Fala que eu fiquei magoado desde a primeira vez que ela reagiu ao meu encantamento com um livro como se fosse uma grande besteira. Fala que não é besteira! Fala que não adianta nada ser apegado ao desapego. Fala que eu to tentando entender isso... Explica que algumas coisas tem valor não por custarem noventa moedas, mas porque foi difícil juntar noventa moedas havendo tantos outros gastos mais urgentes. Fala que eu vou defender o que fez parte do meu passado com unhas e dentes porque foi isso que me fez ser quem eu sou. Fala que eu não vou ficar feliz com vários quase-dez se tirar cinco e setenta e cinco em uma prova, e deixar duas questões em branco na outra. Faz ela entender que não vou ficar contente enquanto não for bom em tudo. Fala que é quase insuportavelmente difícil essa batalha que eu travei contra o meu ego. Fala, moço! Fala tudo e não a deixe ir embora porque eu não sei falar sem fazer drama. Fala do seu jeito porque deve ser melhor que o meu. Fala porque eu não to sabendo mais falar.

Ouviu-se o som taxativo do bocal do telefone batendo na base. A moça foi. Apaixonou-se pelo amor do menino e foi correndo, desesperada, sem saber pra onde. Sem saber com quem devia falar. Contou o que ouvira em poucas palavras, à sua cândida maneira, a todas as pessoas que encontrou na rua. Assim, tinha certeza, aquelas poucas palavras que resumiam todas as tantas palavras que um menino desconhecido lhe chorara ao telefone, chegariam aos ouvidos da misteriosa menina-alvo
.

Mas o menino não sabia desse ímpeto. Sentiu-se até mais sozinho do que antes. Quando percebeu que não havia mais ninguém lhe ouvindo, chorou, chorou e chorou. E dormiu três noites seguidas de tanta tristeza.

domingo, 2 de junho de 2013

Amor feito com poesia

Para Palas Atena

A moça tinha vinte e poucos sonhos. Cachos muito dourados caíam-lhe poeticamente dos cabelos. Tudo lhe era poético, aliás. Caminhava que parecia câmera lenta. Era como se o vento oferecesse maior resistência ao seu corpo do que aos demais corpos (talvez até o vento gostasse dela, e quisesse esticar ao máximo o tempo em sua presença).

Como devagar andava, devagar olhava as coisas, o mundo, as pessoas. Devagar ouvia até mesmo palavras como "pressa". Demorava a entender as coisas, o mundo, as pessoas. E se demorava a entender pela cabeça, que funcionava devagar, sentia depressa pelo coração, que pulsava rápido e com força, dando-lhe a sensação de trazer no peito uma escola de samba.

Queria ser musa de algum jovem aspirante a poeta, e o era de muitos, sem saber. Não sabia se acreditava em deus, mas sabia que ao menos uma deusa havia de acreditar nela. Certo dia - especificamente numa terça-feira de céu ensolarado e azul -, o destino achou sua menina.

Assim que o viu, foi tomada pelo encantamento. E, justiça seja feita: tratava-se de um belíssimo representante da espécie. Alinhado. Tradicional. Quase quadrado, na verdade, e recheado da mais fina forma de expressão de nobres sentimentos. A imagem dele invadiu-lhe os olhos, e seu fôlego esvaiu-se num só suspiro involuntário. Se aproximou vagarosamente, sedutora. Tomou-o em suas mãos e, assim que sentiu seu cheiro, desejou pertencer a ele, e que ele pertencesse a ela. Para a própria sorte, não teve de enfrentar qualquer tipo de resistência. Segurou-o com firmeza, decidida a explorá-lo por inteiro. Devorá-lo. Ansiava por captar sua essência. 

Aproximou-o de seu rosto, lentamente, e ficou, por alguns segundos, apenas contemplando seu amor recém descoberto. Observando. Absorvendo. Admirando. Prevendo, sabendo de antemão todo o prazer que podiam propiciar um ao outro. Finalmente, pensava a menina, finalmente me sinto livre! E foi da liberdade que sentiu que a invadia que tirou coragem para mergulhar nele sem qualquer pudor: olhou-o por dentro. Amou-o em plena luz do dia. Marcou suas orelhas como que para explicitar aquela relação de amor e posse há poucos minutos subentendida. Fitou-o novamente. Sorriu, entre maliciosa e ingênua. E então, deu-se o ápice daquele inusitado encontro: apesar de toda aquela gente ao redor, a menina desvirginou aquele livro apaixonante, página por página.

sábado, 23 de março de 2013

A história de Pedra e Bolha

para Manoel de Barros


Pedra era um belíssimo mineral: preto e sólido primogênito da respeitada família Rocha. Pedra morava com sua família num majestoso arquipélago brasileiro. Tinha tudo do bom e do melhor, mas não achava sua vida nada fácil. Era um jovem um tanto quanto nostálgico, apesar de muito rígido em suas opiniões.  Morando tão perto do mar, é claro, não podia deixar de ter certa poesia.

Percebia-se aprisionado por sua própria natureza, e lamentava-se diariamente por isso. Minerius Rocha, seu pai, ouvia as lamúrias de Pedra, e acreditava tratarem-se de simples angústias adolescentes, mas Pedra sabia que seu sentimento era de uma inconformidade que ia muito além do exagero hormonal de sua faixa etária. Tinha sonhos, e nunca deixaria de ter.

“As pedras não sonham, meu filho. As pedras só pedram”, dizia Minerius, plantando ervas daninhas no peito de seu filho, que queria mais. Pedra queria saber nadar. Em alguns dias mais ambiciosos, ousava até sonhar com voos. Mas só desejava saber voar pra mergulhar, do céu, no mar. Tinha pelo mar um amor que se tem por deus.

Bolha, uma onda tranquila do mar que banhava o arquipélago onde morava Pedra, o olhava de longe desde que eram crianças. Havia nele qualquer coisa que brilha, apesar de estar sempre sisudo. Certo dia, Bolha resolveu aproximar-se de Pedra e tentar a sorte, puxar assunto. Conversaram pouco. Bolha era falante, agitada, mas Pedra só lhe dava timidez.

Após dias e dias sendo visitado por Bolha, Pedra confessou invejar sua liberdade de ir e vir. “Não é liberdade”, disse bolha: “é uma condição. Não é como se eu tivesse escolha. Às vezes eu quero ficar quieta no meu canto, e não posso. Tenho que seguir com o ciclo. Já tentei conversar isso lá em casa, mas papai é irredutível”.

Bolha tentou convencer Pedra de que valia mais a pena viver os dias com alegria, e que o primeiro passo para conseguir isso era “aceitar a imutabilidade do que não pode ser mudado, oras!”. Mas Pedra era cabeça dura, e não queria dar o braço a torcer. Sentia inveja de Bolha e sua (supostamente) infinita liberdade. Queria, como Bolha, poder deixar-se levar pelo Vento, deixar-se influenciar pela Lua, e ser qualquer coisa que não se enquadrasse na dolorosa necessidade de estabilidade e coerência exigidas pela família Rocha.

“Nem chorar eu posso!”, disse Pedra, num soluço seco. Tamanha foi a emoção que invadiu Bolha, que a pequena onda evaporou antes do tempo, e virou chuva, chorando a si mesma sobre Pedra. O ciclo da água ficou de ponta cabeça: vegetações secaram, ecossistemas se desequilibraram. O Vento ouviu reclamações e rumores por onde passou, e foi até o arquipélago da família Rocha a fim de tirar aquela história a limpo.

Ao conhecer Pedra e Bolha, constatou que os rumores eram verdadeiros e ficou furioso. E Vento furioso assume forma de Ventania, conforme é sabido. “É liberdade o que você quer? É liberdade que você vai ter!”, disse o Vento, já mulher. Deu-se uma tempestade assustadora, e Pedra desprendeu-se de sua família. Bolha imediatamente envolveu-o em si, como um manto. Pedra sabia que sentiria saudades de seus entes, mas estava disposto a pagar o preço para sair daquela pasmaceira que era sua vida.

Pedra e Bolha se divertiram por anos a fio, mas o tempo passa para todo mundo, e Pedra começou a se desgastar. Ocupava cada vez menos espaço, e tinha cada vez menos controle do espaço que ocupava. Bolha, por sua vez, com o tempo, de azul, foi ficando branca e cheia de bolhas, fazendo, finalmente, jus ao nome.

Quando Pedra se desgastou até o final, Bolha se transformou em espuma do mar e, de tanta saudade, deixou-se levar pelas ondas mais fortes por toda a eternidade. Pelo menos, foi assim que o Vento, veterano de guerra, me contou: “É, minha criança... Espero que eu tenha agido de forma correta”, me disse, antes de virar brisa e bagunçar meu cabelo.

Acho que depois de velho e de muito errar querendo acertar, o Vento se deixou ser criança e acertar sem querer nada. Ainda pude ouvir que “ambição é o que mata a gente, mas também é o que faz viver” num uivo pequenininho, de um Vento que agora, não desprende nem folha do chão.

domingo, 9 de setembro de 2012

Lia

 Sala vazia, e ela estava sentada na cadeira do professor. Concentradíssima em sua leitura, fazia hora para a aula começar. Gostava de ler em voz alta quando não havia ninguém por perto. Sentia que cada palavra ganhava vida ao ser proferida em alto e bom som. As palavras eram tocadas por seus olhos, decifradas por seu cérebro e, uma vez trazidas ao mundo pela sua voz, reverberavam pelo chão, abalando de forma quase sísmica a energia do lugar.
  Ele passou direto por aquela sala. Estava com pressa, mesmo tendo tempo de sobra. Foi quando ouviu uma voz recitando poesias. Engoliu sua pressa e deu três passos para trás. Permaneceu parado por alguns instantes e, instintivamente, entrou na sala.
- Com licença - disse, como um despertador, acordando a menina de seu sonho.
- Toda - respondeu-lhe, fechando o livro e repousando-o sobre a mesa.
- Bilac? - observou o menino, esticando os olhos sobre o livro. 
- É... - confirmou, num sorriso sem graça e recíproco.
- Cê sabe que Via Láctea é a única coisa boa dele, né?
- Não é verdade! Essa antologia é muito boa. As pessoas são muito preconceituosas com parnasianismo - disse, desolada.
- Parnasianismo é chato - provocou.
- Chato é quem não gosta de parnasianismo - retrucou, sapeca.
  Ambos sorriram. Presentearam-se, naquele instante, pela primeira vez. Cada um deu de presente ao outro seu sorriso rasgado mais bonito e mais espontâneo. Ele apoiou a mochila numa das carteiras e sentou na mesa do professor, ficando cara a cara com a menina. Falaram de literatura até não poder mais. Falaram de música até poder pra sempre. Trocaram diversos sorrisos bobos. Num dado momento, um cílio caiu de um dos olhos do menino e pousou em sua bochecha.
- Com licença - disse-lhe a menina, como um despertador, acordando o menino de seu sonho. Quanto tempo eles teriam ficado conversando? 
- Toda - respondeu, observando-a equilibrar o cílio cuidadosamente sobre seu dedo.
- Faz um pedido - o menino uniu seu dedo ao dela, e, ao afastá-lo, levou consigo seu próprio cílio - Seu pedido vai ser realizar - disse a menina, desviando seu olhar para o chão.
- Vai? - perguntou-lhe, enquanto puxava o rosto da menina para o seu campo de visão.
- Vai - disse-lhe, sorrindo. E portava no olhar uma malícia da qual não se sabia dona. Beijaram-se longamente.
- Com licença - disse uma voz vinda da porta da sala. Um grupo de alunos também havia chegado mais cedo para a aula.
- Toda - disseram em uníssono, com um sorriso bobo em cada rosto, antes de pegarem suas coisas e saírem, de mãos dadas, pelo corredor.

sábado, 16 de junho de 2012

Nem tanto, nem tão pouco


 Foi num dia bem comum que tudo aconteceu.  Os dois estavam com suas dores mais ou menos atenuadas, e tinham um interesse discreto um pelo outro. Tanto fora sufocado que por pouco ainda havia aquele "algo". Ela, querendo saber o que pensava. Ele, pensando sabe-se lá o que. A libido ocupava seu devido lugar. Recíproca sabida, mas quase nenhum frisson. Quase nenhum afã, ainda mais se comparando às expectativas.
   Prenderam-se em olhares que dariam, a quem passasse, a impressão de que havia amor ali. Mas não havia. Parecia amor, mas não era. Era quase. Prenderam-se num beijo bom, mas que não era nada além de simplesmente bom. E se separaram, como se nada tivesse acontecido. Talvez por não quererem encarar a importância daquele beijo, ou talvez por não acharem que era importante. Talvez não achassem importante nem deixassem de achar. Com toda a certeza, talvez não fosse bem assim. Muito pelo contrário.
   Ela pensava se teria valido a pena. Ele não se preocupava, mas não deixava de se preocupar. Ela, querendo motivo pra querer se envolver. Ele, querendo motivo pra dar motivo. Sentiam aquilo que se sente quando não se sabe o que se passa. Quase eram. Mas ainda tratava-se de cada um por si. Ele, nostalgicamente eufórico. Ela, euforicamente nostálgica. Tão previsível que ninguém jamais poderia supor.

domingo, 3 de junho de 2012

Lá vai fumaça

   Ele imitava com a boca os primeiros acordes da música enquanto segurava tortamente o violão, brincando de saber tocar e cantar. "Não chore não, vou cantar pra você", e sorriu um sorriso lindo. Porque ela haveria de chorar? Aquela falta total de talento pra música não o impedia de cantar, e isso a fazia sorrir com a alma. Aquela presença total de talento para um beijo morno e firme a fazia sorrir com o corpo. Ela voltou pra casa pensando em como não era "a mais bonita, a joia perfeita", mas feliz por ter ouvido aquele tanto.
   Com o tempo, de "anjo do céu" a menina virou "bonita", enquanto o menino previa, com bastante poesia, que aquilo ali teria um fim proximamente. Não era difícil de prever, afinal, a menina tinha "esse ar distante assim". Mas é claro que alguém que não tem medo de cantar mesmo sem saber cantar, não tem medo de se declarar mesmo sem saber reciprocidade. "Eu não acredito". Foi exatamente assim que ela respondeu àquele precoce "eu amo você". Não quis com isso dizer que não acreditava no amor dele por ela, e sim que não acreditava no amor por si só. Pode parecer cruel, mas sua resposta foi sincera, e não teve intenção de ser pedra. Mas o fato é que foi, mesmo, uma pedra que lançada na cara do menino, e ele não saberia responder de outra forma que não com poesia. E foi aí que a menina ouviu os versos que a atormentariam pelo resto da vida: "verdes sem esperança, que davam amor sem amar". Como podia alguém dar amor sem amar? Como podia alguém ser entregue sem se entregar? Como ela podia existir, como? Como, se a sua existência e a sua personalidade desafiavam as leis da lógica? Como podia aquela maldição em forma de poesia se encaixar tanto àquela situação? Como podia aquele dia ainda estar tão preso à memória daquela menina tanto tempo depois? Como podia a cabeça da menina ter mudado tanto? "O pior disso tudo", disse o menino, "é que você não fere ninguém de propósito. É natural. Talvez até seja essa a sua missão nesse mundo". Ela o fitou naquele momento. "Fazer os outros crescerem através da dor", completou. "Eu não quero ver você nunca mais", cuspiu palavras a menina. "Você não vai. Pode ter certeza", retrucaram os olhos tristes do menino. E, de fato, os dois nunca mais se viram.
    Porque pensar nisso tanto tempo depois? Ah, a ida fase ultrarromântica daquela menina parecia ter voltado com tudo, fazendo passar um furacão na sua vida. Ela sentou em sua janela, como de costume, e olhou o céu, esperando o condor.

sábado, 2 de junho de 2012

Aliciamento

   Dentro do olho de um furacão de nãos havia um outdoor piscando "SIM!" em letras garrafais. Havia fumaça de cigarro e Lenine tocando ao fundo. Haviam potes e mais potes de geleia, mil ideias de nail arts e muita admiração. Mas aquele sorriso, que boiava no céu em forma de lua, sabia que toda aquela promessa de felicidade não passava de promessa... Sabia que não passava de expectativa onírica.
   Mestre gato não se deixa aliciar porque tem medo de amar de novo. Mestre gato tem medo porque não quer mais ver gente maluca (principalmente olhando pro espelho). Mestre gato não quer ofender, mas, mesmo sem saber onde quer chegar, nem todo caminho serve.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Há sim


- Ai, ai, ai, ai! - gritava a menina, exagerando, como de costume, ao externar a dor que sentia.
- Que foi, pequena? - socorreu-lhe o garoto, enviado pelo anjo da guarda.
- Eu caí da bicicleta! Tá doendo muito! Olha, fez machucado!
- Ih, mas isso passa. - disse, fazendo carinho em torno do arranhão.
- Eu sei que passa, mas tá doendo mesmo assim! Eu nunca mais vou andar de bicicleta! Eu odeio bicicleta! - bradou.
- Odeia? - disse o garoto, com um meio sorriso nos lábios.
- O-DEI-O!
- Mas não é legal andar de bicicleta?
- É, mas aí eu me distraí e vim parar aqui no chão. Eu nunca mais quero cair da bicicleta!
- Vem, eu te ajudo a levantar - ela se apoiou nos braços dele, que pareciam infinitamente mais fortes que o dela - Olha, esse machucado vai fazer casquinha.
- Eu sei, né. Eu já me machuquei antes. - disse-lhe, do alto de sua inexperiência.
- Ah, então você também sabe que não vai resistir e vai puxar a casquinha várias vezes, né?
- Sei... Como é que você sabe?
- Porque eu fiz igualzinho quando caí da bicicleta. Mesmo sabendo que isso vai fazer o machucado ficar aberto pegando poeira e fazendo dor por mais tempo, né?
- Uhum. Você também parou de andar de bicicleta?
- Durante muito tempo, parei sim. Mas aí eu percebi que eu não caí por culpa da bicicleta. Eu caí porque eu me distraí. E andar de bicicleta é legal demais, eu não podia passar o resto da vida sem! Só comecei a prestar mais atenção.
- Mas e se você se distrair de novo?
- Ah, isso já aconteceu. E eu caí, e fez casquinha, e eu tirei a casquinha várias vezes antes de sarar.
- E mesmo assim não cansou da bicicleta?
- Não. Porque eu ligo mais pra bicicleta do que pro machucado, entendeu?
- Entendi - sorriu a menina. E tinha entendido mesmo.
- Você pode botar um band-aid no machucado, também. Aí quando você pensar em arrancar a casquinha você lembra que não quer sentir dor de novo.
- Eu não tenho band-aid aqui... Só em casa.
- Quer que eu vá contigo até a sua casa?
- Pode ser, mas eu moro longe... E minha perna ta doendo muito.
- Não tem problema, vem de bicicleta comigo.
Ela olhou pro machucado, pra bicicleta e pro garoto... Pensou, pensou, pensou...
- Ta bom - disse enfim, a pequena - Mas vê se você não se distrai nem um tiquinho, hein?
- Pode deixar.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Invencível

"O homem que nada deseja é invencível" 
(Era uma vez no México)



   Mesmo depois de me ouvir dizer tudo aquilo, sua expressão permanecia tranquila como a de quem não se deixa abalar por nada na vida. Ele encostou sem pretensão na minha cintura, e meu corpo se aproximou do dele sem nenhum comando consciente. Uma das mãos, levou até meu pescoço, e sussurrou no meu ouvido "eu tô aqui", e encostou a mão no meu coração (que me traía, ao bater acelerado e demonstrar meu nervosismo), "e aqui", e então tocou minha cabeça, adivinhando, como um feiticeiro, que eu jamais seria capaz de enterrá-lo no esquecimento. "Não importa quem passe por aqui", concluiu, deslizando um dedo pelos meus lábios, me deixando ainda mais atordoada. Virou-se, então, de costas, tirou seu violão do chão, e dedilhou aquela música que me dera de presente sem nem mesmo saber se eu queria ouvir. Que bobagem... É claro que eu queria! É claro que ele sabia disso. É claro que ele foi embora sem olhar pra trás. E é claro que eu não pisquei enquanto meu olhar alcançava sua imagem.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Desintoxicação sentimental

   Não consegui dormir naquela noite. Pintei meu cabelo – coisa que achei que jamais faria – e disse a mim mesma que ali nascia uma nova eu. Uma vez incorporada essa nova eu, apaguei teu número do meu celular, desejando imensamente que isso apagasse você da minha cabeça.
   Chorei copiosamente, até chegar à conclusão de que tenho um reservatório infinito de lágrimas. Depois me lembrei do cabelo pintado, o que me fez perceber como era errado chorar por você. E então comecei a chorar por dentro. Em pouco tempo, dentro de mim, era tudo água. Era tudo maremoto. Minhas idéias? Perderam-se num furacão. Meu sangue se transformara em lava e minha literatura era só exagero, apelando para metáforas e palavras como “visceral”, “doloroso”, “implodir”... Ah, nada me bastava.
Queria alguém correndo atrás de mim novamente. Senti uma vontade súbita de ter um filho. Lembrei-me daquele filme “Romance”, onde a protagonista dizia que quando se sentia completamente feliz, tinha vontade de ter um filho. Tive vontade de ter um filho, mas me sentia completamente triste. Via esse filme e me lembrava de você. Sorria ao me lembrar de você. Porque agora meu sorriso some quando penso no amor? Porque agora meu coração pesa dentro do peito? Porque agora minha garganta se aperta em nós?
   “O amor é uma doença”, li certa vez. Concordei, mas só agora tomei consciência da proporção dessa verdade. Uma doença degenerativa, pensei. Nos dá náuseas, nos põe cambaleantes e com um sorriso bobo por causa de alguém que não sabe nos fazer feliz. Por causa de alguém que não sabemos deixar feliz.
   “Preciso parar de te amar com urgência”, decidi. “Pra poder ainda te amar depois de depois”. Saí de casa para lembrar que o sol ainda me toca cantarolando um velho tango que me traduzia.

sábado, 19 de novembro de 2011

Luísa Zanni alterou seu status de relacionamento

Muito estranho - Nando Reis

(agradeço à Luna, que me ensinou a usar um player decente no blogger)

   Diz-se por aí que o amor é cego. Talvez porque o amor seja de uma beleza tamanha que nos torna capazes de abstrair os defeitos da pessoa amada. Sem perceber ou se importar com defeitos, cada detalhe salta aos olhos, torna-se lindo, e faz meu amor renascer a cada segundo, sem que em nenhum momento tenha morrido. E eu adoro cada atitude despretensiosa tua, que me torna ainda mais apaixonada por você a cada olhar. Sorte a minha que amor é coisa que preenche sem ocupar espaço. Se não, meu amor teria se alastrado por mim e me estilhaçado em mil pedacinhos na primeira vez que eu te beijei. Ou melhor, na primeira vez que você me beijou. Falando nisso, adoro quando você me puxa pra um beijo. Isso causa uma espécie de pausa no meu raciocínio e me impede de tomar qualquer atitude contrária à tua. O que é, lançando ao vento minha modéstia, uma prova da sabedoria do meu inconsciente. Afinal, convenhamos, negar um beijo teu não é atitude das mais inteligentes.      
   Adoro a reação do meu corpo ao teu toque. Adoro as tuas mãos deslizando pela minha pele. Adoro não precisar ter pudor nenhum em te informar que adoro que você saiba sempre exatamente como, quando, onde e o que eu quero. Adoro aqueles instantes em que a gente fica só se olhando, e de repente você fala "oi, tudo bem?". Adoro quando você me liga e diz que "não tem nada pra falar" porque eu sei que depois disso vem algo como "é só porque eu tô com saudade, mesmo", ou "só que eu te amo". Adoro as segundas-feiras que tem você no final da aula. Adoro noites interrompidas pela tua imagem na minha cabeça. Adoro quando eu quase me desvencilho de um abraço e você me aperta mais forte do que antes. Adoro como meu abraço anseia o teu. Adoro as tuas cartas. Adoro o teu colo. Adoro, meu deus, como adoro teu cafuné! Adoro as tuas tentativas de disfarçar ciúme sobre gente que nem me importa mais... Adoro quando eu falo qualquer coisa que te deixa sem graça e você desvia o olhar do meu com um sorriso lindo e discreto nos lábios. Adoro as músicas que nos unem. Adoro o seu instinto assassino ao ver um mosquito. Adoro quando você segura a minha mão e sabe que isso diz tudo o que nem as palavras conseguiram dizer sobre a gente. Adoro tudo que a gente construiu até aqui, e adoro a expectativa do que ainda pode vir. Queria te dar a exata noção do quanto sou capaz por você e, melhor ainda: com você. Contrariando Manuel Bandeira - com todo o respeito - embora o meu corpo tenha, sim, verdadeira devoção pelo teu, é na minha alma que fica guardado o meu amor pela tua.

sábado, 1 de outubro de 2011

Maquiagem de palco

Depois de assistir os vídeos da Shakira no Rock in Rio, morrendo de vontade de ter estado lá, só poderia escolher Inevitable pra acompanhar esse conto.

   Era um espetáculo infantil. Ela se destacava na platéia por não estar ali acompanhando uma criança, e sim, sozinha, no fundo do teatro, vendo a peça por vontade própria.
   Também por vontade própria, ela aplaudiu de pé, com força, ao final do espetáculo. Lágrimas rolavam pela pele clara, como prisioneiro que foge enquanto o sentinela dorme.
   E também como prisioneiro, sorrateiramente ela deixou o lugar, pois não havia mais nada a ser vivido ali. Mas eis que, no caminho, sente um toque em seu ombro. E ao virar-se por instinto, dá de cara com ele, é claro.
   - Obrigada por ter vindo - disse-lhe, entre cauteloso e ofegante.
   - Não tem de quê! Eu adoro teatro - pausa - Você é um ótimo ator. Parabéns. - retrucou em tom blasé, tentando disfarçar a surpresa com cinismo.
   - Para com isso, vai.
   - Não. Para com isso você. Para de tentar me fazer acreditar que tem jeito. Para de prometer retorno sabendo que eu vou esperar e que você não pretende cumprir suas promessas. Para de fingir que faz questão de mim quando não faz. Para de criar um clima de proximidade onde a distância impera. - cai uma lágrima - É uma pena que eu te ame, mas o fato é que amo, e ponto. Já entendi que quanto mais eu tentar bater de frente com o que eu sinto, mais eu vou sofrer. Já aceitei meu fardo: te amo. Te acho incrível! E vou te ver crescer de longe, você nem vai me notar. Não quero atrapalhar sua vida... Não vou mais exigir que me dê atenção. Nem esperar que se importe com o silêncio ao qual submeto o meu amor. - ela ponderou e se corrigiu - Quer dizer, lá no fundo, na verdade, vou sempre esperar que você corra atrás de mim e que faça por merecer minha confiança. Porque eu te amo, e todas as expectativas do amor partem do desejo de ser correspondido. Mas tudo bem, você é mais importante pra mim do que eu pra você. Ninguém tem culpa disso. Eu te amo, e daí? Acidentes acontecem. E a minha vida não está fadada à infelicidade por um sentimento extraviado.
   - O que você quer? A gente marca de sair, você escolhe quando e onde, a gente pode...
   - PARA! - eles se entreolharam, tristes - Chega! Eu não vim aqui pedir nada, tá bom? Não ia nem falar contigo. Vim aqui pra te ver em cena, só isso! Você pode me considerar uma fã, mais nada. Pode fingir que essa conversa nunca aconteceu, não faz diferença. - ela desistiu de conter as lágrimas, e tirou da bolsa espelho e maquiagem - Mas já que eu comecei a falar, me deixa terminar. Só ouve, tá? - o choro cessou - Sabe, a gente não escolhe a quem amar - passou corretivo sobre o rímel borrado - O amor é um negócio que acontece quando a gente tá desatento. E quando a gente se dá conta, pronto. O amor já se instalou em você, e não tem feitiço que faça ele se desinstalar - retocou o delineador tentando conter o tremor nas mãos - Às vezes o mesmo amor brota em duas vidas diferentes, e é bom. Às vezes o amor por alguém não vinga no outro, e aí é ruim pra quem ama, porque sofre. Amor é gratidão, admiração, lealdade, respeito, confiança. Mas amor é ciúme, também. É cobrança, é expectativa. Quando se sofre por uma paixão platônica dói, porque não é bom querer alguém que não te quer. É um soco na auto-estima. Mas tudo que envolve amor, dói mais. O amor é gêmeo siamês da amizade. Um não existe sem o outro. E dedicar a sua amizade a alguém que não tem tempo pra você, é de dar pena. Só que eu cansei de ter pena de mim por sua causa. É muito desgastante cuidar do meu sentimento por você e ainda ter que cuidar do seu sentimento por mim. Eu vou continuar a minha vida, porque nada nesse mundo é capaz de me parar. E vou ser muito feliz, porque vou fazer por onde. Vou desejar sempre que você tenha calma, sonho, força e sucesso - exagerou no blush pra disfarçar a palidez. - E se algum dia você quiser, pode me procurar, pra dividir uma alegria ou uma tristeza. Mas, ó, não precisa fingir que é recíproco não, tá? Se não, vai ficar difícil te amar assim, de graça, como eu tô começando a tentar fazer. Te cuida - guardou a maquiagem de volta na bolsa e saiu andando sem olhar pra trás.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

sem título #1


- O que você quer?
- Quero que me leve pra conhecer cada cantinho do mundo, e que me encoraje a enfrentar cada medo meu. Quero que me lembre do quanto eu sou forte e, que quando eu não lembrar de jeito algum, quero que me proteja das minhas fraquezas. Quero que saiba diferenciar a minha tpm-isolamento da minha tpm-carência. Quero que me ache linda segunda feira de manhã, de cabelo bagunçado e sem maquiagem sobre as olheiras, com nariz inchado de quem espirrou trinta vezes em cinco minutos. Quero que discuta comigo coisas importantes, quero que dê o braço a torcer quando eu estiver certa e que me contrarie carinhosamente quando eu estiver errada. Quero que conte comigo para tudo, e que nunca deixe de ver uma amiga em mim. Quero que tenha por mim o sentimento incondicional que uma mãe dedica a um filho, e que me beije do jeito mais colado possível, como se nós nos transformássemos num corpo só. Quero que seja firme, mas sem jamais deixar de ser terno. Quero cafuné quando não estiver esperando.
Quero que não dê atenção para possíveis mudanças repentinas de humor e que me impeça de começar brigas. Quero que não solte da minha mão, quero que não ameace ir embora, e mais que isso: quero que não queira ir. Quero músicas, quero serenatas, quero cartas, quero ursos de pelúcia gigantes segurando um coração escrito “eu te amo”, quero beijos roubados debaixo da chuva, quero caixas de bombons, quero buquês de flores, quero andar de mãos dadas na rua, quero um porto-seguro para o resto da vida. Quero um romance a moda antiga, digno de filme. Quero um conto de fadas. Você tem um pra mim?
- Não.
- Tá... Serve um beijo, então.