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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vinte centavos e um café

   O preço da passagem subiu para R$3,40. Extrapolou o absurdo. Moro perto da faculdade e, quando dá, vou à pé. Hoje não dava: combinei de encontrar às 19h30 com uma amiga, para devolver uma saia emprestada há meses. Ela tinha pressa e eu já não tinha mais ânimo para estudar, então calcei o chinelo e, com algum sono, saí rumo ao ponto de ônibus. Trazia no bolso do short duas notas de R$5. Pensei: ótimo! O dinheiro dá certinho para ir e voltar de ônibus e ainda comprar um café. Mas hoje não dava.
   Cheguei no ponto e o 239 estava quase saindo. Servia para mim. Teria dado tempo de correr e alcançar, mas eu estava com sono. Não tardaria para passar outro que me servisse. Encostei no poste, entediada, e uma mulher me perguntou e eu ia pegar o 711. Pensei em questionar o porquê da pergunta, mas lhe disse que me servia, sim. Ela então perguntou se eu poderia inteirar sua passagem, exibindo-me umas parcas moedinhas pousadas sobre a mão suja. Respondi que sim.
   As unhas eram curtas. Era mulher. Uma barba rala no rosto, e era mulher. O cabelo comprido e crespo preso num rabo-de-cavalo igual ao meu. Era igual ao meu, era igual a mim, era mulher! Outrora ouvira: "mas e Deus? mas e o inferno? mas e teu papel no mundo? mas você acha isso bonito? mas que sem vergonhice!". Era elA. Era eu. 
   Perguntou quanto custava mesmo a passagem. Disse-lhe o preço. Ela se espantou. Perguntou-me se eu me lembrava das manifestações contra o aumento das passagens em 2013. Conversamos, indignadas. Passou 638, passou 433, e mais um tanto de ônibus que servia para mim, que tinha marcado hora com a amiga e queria café. Mas não titubeei quando ela me pediu o dinheiro que faltava, e sem me arrepender, sabia que abrira mão do café. Sorvi sua pele. Tomei sua dor. Era quente e sem açúcar. O sono passou.
   Subimos no ônibus, paguei duas passagens. Passamos pela horrenda roleta. Ela me agradeceu. Assenti num sorriso. Sentei-me num lugar e ela noutro, mais atrás. Afastamo-nos para sempre, e para sempre estaríamos unidas pelo fardo de sermos mulheres com a ousadia de se exercer num mundo hipócrita e bitolado.
   Sentou-se à minha frente uma mãe com criança de colo. Não saberia dizer se era menina ou menino, a criança. Fiz festinha e aquele comecinho de gente me sorriu um sorriso careca. O sol se punha, lindo, na janela do ônibus. Senti felicidade. Mas  já quase chegando meu ponto senti culpa por comprar por R$3,40 o direito de não andar por vinte minutos de casa até a faculdade. Saltei desejando que aquela mulher não estivesse me olhando, e que não pensasse mal de mim por gastar quase quatro contos por preguiça.
   Cheguei ao local do encontro antes do horário combinado. Sentei-me num banco e passei mecanicamente o troco do bolso à carteira. Faltavam agora vinte centavos para que eu pudesse voltar de ônibus para casa (o que é aconselhável, porque o horário, porque o short, porque as pernas de fora, etc). Me ocorreu pedir vinte centavos emprestados de alguém, mas de pronto mudei de ideia. Estava decidido: voltaria a pé. E, definitivamente, não seria só por conta de vinte centavos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A flexão do eu (ou "A flexão doeu")

Para Vanessa, Sandra, Anderson, Azeredo e todas as suas aulas apaixonadas e apaixonantes.

Aula de língua portuguesa. Tópico: diferenciar morfologia (que é aquela coisa que estuda como as palavras se formam) lexical, nominal e flexional. Meu professor explicava que para perceber de qual processo de formação provém determinada palavra, existem alguns detalhes aos quais vale a pena estar atento.

Falando sobre morfologia flexional, disse que só se trata desta “quando a forma da palavra se altera para a expressão das categorias obrigatórias”. Quer dizer: “quando as alterações são passíveis de serem enquadradas em regras gerais, em mecanismos sistemáticos”, são o objeto da morfologia flexional. O professor pôs-se a falar do que não era flexional, para que pudéssemos entender melhor.

Os artigos e pronomes, como em seu exemplo, são classes de palavras que variam em gênero e número. Morfologia nominal, e não flexional, já que suas “flexões” não são enquadráveis em regras gerais. “Ele”, por exemplo, se converte em “o” (assim como “ela” em “a”), mas não existe uma regra geral que explique ou defina essa alteração. “Eu”, continuou o professor, se converte em “me” ou em “mim”, e tampouco existe uma regra que enquadre essa flexão.

“Eu não tenho uma regra para transformar ‘eu’ em ‘mim’”. Quando ouvi isso, o tempo parou. Lembrei daquele poema do Leminski que diz que “isso de ser exatamente o que se é vai nos levar além”. Assim: sem regras. Assim: sem querer ser qualquer coisa que não seja ser a si mesmo.

Quando o professor falou sobre “a flexão do eu”, ri comigo mesma. Pensei, bobamente: “a flexão doeu”. Só que a flexão do eu, em mim, não me doeu coisa nenhuma, justamente porque não existiram regras nesse processo que gerou as alterações necessárias para que eu me virasse... Para que eu me virasse do jeito que pudesse, me virasse do avesso e, do avesso, saindo de mim, me tornasse eu – exatamente quem eu sou hoje (e hoje, finalmente, sou eu mesma).

Lembrei também de “preciso mudar. Ainda não sou eu”. E então me lembrei que a tentativa da flexão do “eu” em “mim” já doeu um dia. 

Doeu. Em mim. Um dia. 

Mas, uma vez que me despi da querência de normas, a dor cessou. Fui livre e me virei. Virei eu e fiquei livre para sempre. 

A flexão do eu (em mim) doía... Já parou de doer faz tempo. Doía porque eu queria ser flexional – me encaixar em um conjunto de regras gerais, fazer parte das categorias obrigatórias. Por muito tempo fui a própria flexão do “ia”. Não era: almejava ser. Nunca tinha sabido o que era ser mais que “quase”. Mas já faz tempo que me livrei da flexão do “ia”. Doía demais... Me converti em mim e só precisei não ter regras para isso.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Marchando em corda bamba


   Um carro bateu num poste aqui, em frente a minha casa, do outro lado da rua. Fez um estrondo. A gata se assustou e ficou me olhando feito criança. Minha mãe disse que eu não olhasse pela janela pra não me impressionar: a mulher que estava no volante ficou com a boca toda ensanguentada. Parecia sério. Dali a pouco, tinha uma meia dúzia de pessoas em volta da mulher a ajudando a se acalmar, a lembrar de ligar pra alguém que pudesse socorrer, e dali a mais um pouco, minha mãe estava lá embaixo, também, levando um saquinho com gelo e uma toalhinha. "Não aconteceu nada com os dentes, só sangrou o lábio, mesmo", disse-me a doutora, ao voltar pra casa.
   Depois, nego vem me dizer que brasileiro é isso e aquilo, e não entende porque eu fecho a cara. Depois, nego vem dizer que a gente é ingrato e gosta de viver trancafiado, se solitarizando. Mas não foi desamparada que aquela mulher ficou, depois do incidente. Não eram amigos de infância, sequer conhecidos, nenhum daqueles que foram socorrer àquela mulher, provavelmente atordoada com o acontecido. Então, falemos de flores! Agradeçamos a nós mesmos pela chance que incidentes como estes nos dão de provarmos que sermos humanos é motivo de orgulho.
   Ultimamente, tenho prestado muita atenção no que dizem aqueles que se auto intitulam ativistas, seja seu ativismo relacionado ao vegetarianismo, ao feminismo, ao aborto, à maconha, à religiões, ou qualquer outra bandeira que dê pano pra manga suficiente pra horas de conversa, sem que ninguém chegue a nenhuma conclusão brilhante o suficiente capaz de mudar alguma coisa, de fato. Mas, bem, já cheguei à conclusão que essas discussões, por mais infrutíferas que sejam na maioria das vezes, são extremamente necessárias pra que a nossa opinião não envelheça bitolada, fazendo tricô numa cadeira de balanço, ignorando o caos que cresce em volta. Enfim, presto muita atenção às mil opiniões que me cercam sem saber bem qual é a minha. Continuo procurando... E, embora - por não saber qual - não carregue bandeira nenhuma, já me arrisco a chegar perto de algumas. Começo a dialogar com certas ideologias que há pouco me pareciam ridiculamente exageradas.  Lendo o Feminerds eu concretizei minha ideia de que é só prestar um pouquinho de atenção nestes ativistas que a gente critica, pra ver que eles nunca estão totalmente errados (atenção: não me refiro a sociopatas, fanáticos, afiliados ou simpatizantes da Ku Klux Klan nem nada do tipo. Falo de gente que luta pela morte de preconceitos que só fariam bem à nossa sociedade tão mediocrizada e tão passiva perante essa mediocrização). Talvez, esses ativistas sejam mais incisivos do que a sociedade gostaria que fossem, mas não sem motivo pra tal. Afinal, cê já se deu conta de como está o mundo que a gente vive, né? Retiro tudo que eu já disse contra a marcha das vadias, por exemplo, profundamente envergonhada. Não me considero feminista - nem ativista, de modo geral -, mas entendo perfeitamente quem bate no peito pra dizer que é. Pensando nisso, gostaria de remeter esse singelo presente à sociedade:

Caro Patriarcalismo,

Se eu vou saber cuidar de casa,
Lavar louça, cozinhar, pregar botão,

Se eu vou querer me apertar em roupa,
Me maquiar, passar perfume, fazer nail art,

Se eu acreditar que posso
(E posso)
Mudar o que vejo de errado sendo ensinado na cara de pau em plenas salas de aula,
Mudar o conceito bitolado de arte que paira na mente da maior parte das pessoas que conheço,

Se eu for desafiar tua moral hipócrita,
Beijar homem, beijar mulher,
Não beijar homem, não beijar mulher,
Dizer sim, dizer não, não dizer,
Preferir água ou álcool,
Ter filho, não ter filho,
Falar palavrão, não falar palavrão,

Vai ser porque eu acho certo ou porque eu acho errado.
Não porque tuas tradições preconceituosas mandaram
Nem porque eu to a fim de te fazer cosquinha por falta de melhor coisa pra fazer.


Pegando a haste pra levantar bandeira,

Mulher.
Mulher que se livrou do teu arquétipo,
Mas não abre mão de salto alto e um bom batom
E não entra em briga se não for pra ganhar ou sair derrotada com orgulho de ter tentado até o fim
E ainda assim,
Deixando uma semente plantada na cabeça dos que sobreviverem pra seguir lutando.

domingo, 18 de setembro de 2011

Curta a temporada

   Gosto de palcos. E desde que comecei a aprender a me portar num palco, sempre houve, no final do período, um único e especial dia de apresentação. E eu dava graças a deus por haver um único dia. Como sabiamente diria Caetano, "tudo é uma grande explosão, mas parece que não quando é o segundo dia". Pensava que a magia vivenciada no dia da estréia jamais seria alcançada em apresentações posteriores. Mas eis que veio o segundo dia, o tal "dia da bruxa", dia em que todo o elenco relaxa, e erros são cometidos. E eis que a bruxa apareceu para todos, menos pra mim, que me diverti como uma criança, e não errei nenhuma nota, nenhuma deixa, nenhum verso, nenhuma marcação. Chegou o terceiro dia e, com o humor pra lá de Marrakesh, não consegui curtir o espetáculo embora tenha feito tudo de acordo com o ensaiado. Mas como cantar faz mais bem pro corpo que qualquer remédio, terapia ou conselho, o humor ficou no ponto certinho pra eu viver o mais intensamente possível cada segundo do quarto e último dia de apresentação, dia que fui mais feliz do que muita gente consegue ser pela vida toda. E depois desse dia não sobrou nenhum sentimento de "eu podia ter feito melhor", porque eu tive quatro chances de fazer diferente, e soube aproveitá-las.
   Valorizava essa efemeridade também nos relacionamentos em geral, pois, seguindo a mesma lógica, uma relação não seria capaz de gerar duas vezes o mesmo auge, então é melhor desistir dela logo após seu auge, porque depois disso, teoricamente, só viria dor. Mas, sem querer apelar pra filosofia de banheiro feminino, depois de um mal, pode vir um bem em dobro, em triplo, em quádruplo. E esse bem tantas vezes multiplicado, só o somatório entre tempo e persistência é capaz de produzir.
   E é claro que todo espetáculo uma hora ou outra sai de cartaz, e que relacionamentos eventualmente acabam, e que todo fim de coisa boa deixa gosto de saudade. Mas é fato que o tempo de duração é válido se o elenco souber aproveitar todas as deixas para ser feliz.
Se meus conselhos tiverem serventia e você por acaso se deparar com um anúncio de amor em cartaz, vá até a bilheteria, pegue lugar na primeira fila,e  não tenha pressa pro espetáculo acabar.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Acorda pra vida!

   Andei pensando sobre definições, e empaquei na definição de amor. Caraminholando, lembrei de uma frase de Millôr Fernandes que diz: "o recém nascido é a prova de que Deus não desistiu do ser humano". Por achar este um pensamento lindo, caminhei até o mais profundo dele e, daqui, completo: cada dia é um renascimento. Cada despertar é uma prova de amor.
   Quantas vezes a gente vai dormir cansado, triste, brigado com alguém, decepcionado consigo, ou, pela razão que for, com vontade de não acordar nunca mais? Menos dramático que desejo de morte, que nos acomete por vezes, preguiça de ter coragem pra mais um dia, depois de tantos outros, num mundo onde o pão é caro, e a liberdade, mais ainda. E mesmo assim, entre o xingar o despertador e o levantar da cama, acordamos. Às vezes nossos olhos ainda oscilam, o bom humor hiberna, mas, de qualquer forma, jogamos uma água fria no rosto e vamos, ainda que no piloto automático, enfrentar mais um dia, na cara e na coragem.
   Quer prova de amor maior que essa? A fé parece brincar de pique-esconde conosco e, ora bolas, todos sabem que "suicídio" é um termo técnico para "ponto final". No entanto, aderimos às vírgulas e, ah, tá bom, vamos brincar de pique-esconde, então. Tá comigo!
   Com o desenrolar do dia, da semana, dos meses, termina a fase de hibernação do bom humor, fazemos as pazes com quem havíamos brigado - família, amigos, amores e espelhos -, descobrimos que a fé se escondia a um palmo do nosso nariz o tempo todo. Então saímos à luta contra essa inflação abusiva sobre o pão e a liberdade.
   Ir dormir sem vontade de acordar, e acordar mesmo sem vontade é coisa que precisa de coragem. É prova grande de amor-próprio. E, para os que creem, é prova de que Deus nos deu outra chance, outro dia, mais vinte e quatro horas pra gente usar como bem entender. E em seguida, outra noite pra dormir, pois é necessário descansar depois de um dia inteiro, mesmo que ele tenha sido lindo a ponto de não querermos que chegue ao fim.
   Cada dia em que acordamos, é prova óbvia de que somos capazes de enfrentar mais um dia. A natureza não é burra de deixar alguém incapaz de ser bom solto por aí. Acordar é prova de que Deus não desistiu da gente, e prova de que a gente concorda com ele. Concordar com Deus só pode ser amor.