quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A flexão do eu (ou "A flexão doeu")

Para Vanessa, Sandra, Anderson, Azeredo e todas as suas aulas apaixonadas e apaixonantes.

Aula de língua portuguesa. Tópico: diferenciar morfologia (que é aquela coisa que estuda como as palavras se formam) lexical, nominal e flexional. Meu professor explicava que para perceber de qual processo de formação provém determinada palavra, existem alguns detalhes aos quais vale a pena estar atento.

Falando sobre morfologia flexional, disse que só se trata desta “quando a forma da palavra se altera para a expressão das categorias obrigatórias”. Quer dizer: “quando as alterações são passíveis de serem enquadradas em regras gerais, em mecanismos sistemáticos”, são o objeto da morfologia flexional. O professor pôs-se a falar do que não era flexional, para que pudéssemos entender melhor.

Os artigos e pronomes, como em seu exemplo, são classes de palavras que variam em gênero e número. Morfologia nominal, e não flexional, já que suas “flexões” não são enquadráveis em regras gerais. “Ele”, por exemplo, se converte em “o” (assim como “ela” em “a”), mas não existe uma regra geral que explique ou defina essa alteração. “Eu”, continuou o professor, se converte em “me” ou em “mim”, e tampouco existe uma regra que enquadre essa flexão.

“Eu não tenho uma regra para transformar ‘eu’ em ‘mim’”. Quando ouvi isso, o tempo parou. Lembrei daquele poema do Leminski que diz que “isso de ser exatamente o que se é vai nos levar além”. Assim: sem regras. Assim: sem querer ser qualquer coisa que não seja ser a si mesmo.

Quando o professor falou sobre “a flexão do eu”, ri comigo mesma. Pensei, bobamente: “a flexão doeu”. Só que a flexão do eu, em mim, não me doeu coisa nenhuma, justamente porque não existiram regras nesse processo que gerou as alterações necessárias para que eu me virasse... Para que eu me virasse do jeito que pudesse, me virasse do avesso e, do avesso, saindo de mim, me tornasse eu – exatamente quem eu sou hoje (e hoje, finalmente, sou eu mesma).

Lembrei também de “preciso mudar. Ainda não sou eu”. E então me lembrei que a tentativa da flexão do “eu” em “mim” já doeu um dia. 

Doeu. Em mim. Um dia. 

Mas, uma vez que me despi da querência de normas, a dor cessou. Fui livre e me virei. Virei eu e fiquei livre para sempre. 

A flexão do eu (em mim) doía... Já parou de doer faz tempo. Doía porque eu queria ser flexional – me encaixar em um conjunto de regras gerais, fazer parte das categorias obrigatórias. Por muito tempo fui a própria flexão do “ia”. Não era: almejava ser. Nunca tinha sabido o que era ser mais que “quase”. Mas já faz tempo que me livrei da flexão do “ia”. Doía demais... Me converti em mim e só precisei não ter regras para isso.

2 comentários:

  1. Simplesmente genial. Nunca achei que a minha dor tinha explicação morfológica.

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  2. POXA, ANÔNIMO. ME DIZ QUEM É VOCÊ D:

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Obrigada pelo comentário! Vou ler, e depois publico e respondo, ta?